João

João nasceu em Santa Rita do Sapucaí, Minas Gerais, em 1936. Primogênito, teve uma irmã, que faleceu. Aos 8 anos, perdeu a mãe. O pai se casou novamente, tendo mais dois filhos. Trabalhou na roça desde cedo, ainda criança. Com 17 anos, chegou ao interior de São Paulo para morar e trabalhar numa fazenda, onde conheceu Maria, com quem se casou aos 29 anos. Tiveram 6 filhos – 1 homem e 5 mulheres. Desde então, passou por sítios e fazendas, plantou – principalmente feijão, algodão e milho -, colheu, dirigiu charrete e trator. Quando conseguiu se aposentar, comprou uma casa em Holambra, S.P., onde mora até hoje com a filha Paula, o genro, dois netos e 4 cachorros. 
A esposa faleceu em 2010, por problemas cardíacos. De 6 meses a 1 ano depois, João começou a ficar mais esquecido e confuso, piorando gradativamente. Desde 2011, ele faz acompanhamento no ambulatório de neurologia de um hospital universitário. 
Eu o conheci em 2014, em uma consulta. Com olhar atento e sorriso no rosto, sentou-se na cadeira, acompanhado por Paula, a filha mais nova e principal cuidadora. Ela contou que, após a morte da mãe, o pai, muito abalado, começou a apresentar alguns sinais preocupantes: esquecer o fogão aceso, perder-se andando de ônibus, ter “comportamentos estranhos”. Acreditava estar sendo perseguido por trabalhadores que faziam uma obra próxima da casa dele. João estava bem-disposto e comunicativo. Contou com detalhes a história da perseguição, apesar do descrédito dos ouvintes. Evangélico, notou dificuldade para ler a bíblia. Em certo momento, desabafou: “uma coisa que eu sinto muito é... eu aprendi tanta coisa e esqueci tudo”.
Quando fui visitá-lo pela primeira vez, fiquei mais de duas horas conversando com ele e me impressionou sua habilidade narrativa. João me contou grande parte de sua história de vida – como era a vida na roça, como foi perder a mãe aos 8 anos, como conheceu a esposa e, emocionado, como ela morreu. Disse ser muito bom em matemática, chegou a ter aula com um conhecido, mas, como ele já tinha aprendido tudo e ficado melhor do que o professor, as aulas, um dia, cessaram. João também se lembrou de acontecimentos recentes – contou-me que tinha caído no dia anterior. Mostrou-se ciente de que tem “algo” – “às vezes vou pegar uma ferramenta e esqueço qual era; então pode ser que eu tenha um ramozinho de Alzheimer”. Quando perguntei o que era isso, ele me disse: “é quando as pessoas não dizem coisa com coisa”. No trabalho, já chegou a colocar água no trator, achando ser combustível. Ao me despedir, segurou firmemente minhas mãos por um tempo. “Foi uma boa conversa”, convidando-me para aparecer por lá novamente. 
Eu retornei 5 anos depois. E, dessa vez, eu o veria quase toda semana, ao longo de 2 anos. João estava mais magro, os cabelos, mais brancos, a testa, com mais rugas. Já não se vestia, comia e tomava banho sozinho. A conversa não mais se arrastava; a fala se tornou truncada, quase incompreensível. Não contou mais a história da perseguição. Na última consulta em que eu acompanhei, viu peixes nadarem entre seus pés e conversou com o próprio reflexo no espelho, dizendo que “aquele homem” era o mais bonito da sala. O sorriso e o forte aperto de mão permaneciam. 
Levei João – sempre acompanhado por Paula – para vários lugares: o sítio, onde ele vislumbrou o trator, a colônia de férias onde viveu e trabalhou por 12 anos, que o permitiu lembrar do quarto em que dormia, a igreja, onde frequentou com a esposa por tantos anos, e as casas de todos os 6 filhos, alguns próximos, outros, distantes. Compartilhei almoços, cafés, bolos, risos, choros, piadas, desabafos, carinhos. Vi a reaproximação entre pai e filho, em um abraço que até então nunca tinha sido dado. 
Paula topou se arriscar nessas andanças comigo e com João, mesmo sabendo o quanto era difícil sair de casa com o pai. Às vezes, ele demorava mais de meia hora para conseguir entrar e sair do carro – o medo de cair enrijecia o corpo todo – e, um dia, quase agrediu uma policial que tentava ajudar. Paula, que deixou o emprego para se dedicar ao pai, viu João ficar agressivo com ela, confundi-la com empregada, patroa, mãe, esposa – chegou a ser assediada por ele. Ela, que já chorou escondida no banheiro e teve vontade de sumir, foi, aos poucos, aprendendo a lidar com a doença, a perceber que um aceno de mão pode substituir uma palavra e que, quando a pupila dilata, João está emocionado. Aprendeu a vibrar com as pequenas grandes vitórias. Um dia, contou-me, toda feliz, que o pai tinha se levantado da cama sozinho e ido ao banheiro, o que não fazia há 1 ano. Outra vez, recebi a seguinte
mensagem:

Aconteceu algo bem legal. De manhã, eu sentei na cama com ele, fui orar com ele. Aí eu comecei a orar, falar algumas coisas e ele quis começar a chorar, sabe? Eu senti que ele estava compreendendo a oração que a gente estava fazendo ali, eu senti que ele estava entendendo aquele momento. Foi bem gostoso! Mostra o quanto a fé dele é forte, sempre foi; mesmo com a doença, a fé prevalece.

E assim Paula e João vão aprendendo a domar o medo diante de uma doença tão incerta, a transformá-la através da fé, do amor, do cuidado. 
 

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