Maria

Filha de imigrantes italianos, Maria nasceu em 1928, na cidade de São Pedro, S.P. Teve 1 irmã e 4 irmãos, sendo que um faleceu ainda criança. Na infância, mudou-se para a cidade de Jataizinho, no estado de Paraná.
A mãe faleceu quando Maria tinha 5 anos de idade. Os irmãos acabaram se separando, cada um indo morar com familiares e em regiões diferentes. Maria permaneceu na casa do pai com o irmão caçula. 
Estudou até o terceiro ano da escola primária. Católica, Maria se casou com 17 anos e mudou-se para São Paulo, onde teve 3 filhos homens. Foi lavadeira/passadeira e auxiliar de cozinha na Fundação Bradesco por 16 anos. Após esse período, trabalhou como babá para algumas famílias. 
Na década de 1980, foi morar com o filho Ivan e a nora Neuza. Lá, ajudou a cuidar das netas. Foi no dia a dia da rotina da casa, entre o cuidado das netas e os afazeres domésticos, que Ivan e Neuza foram percebendo os sinais da demência, mais fortemente em 2006. Maria, tão cuidadosa, começou a cometer alguns erros, como queimar as camisas que passava para o filho, esquecer-se de receitas que sempre fazia, deixar o fogão aceso, guardar as calcinhas sujas. O diagnóstico de doença de Alzheimer apareceu em 2008. Em 2014, sofreu uma queda e teve uma fratura no fêmur. Desde então, saiu da casa do filho e foi para a Instituição Amor e Dedicação. Ivan visita a mãe todos os dias, depois do trabalho. 
A primeira vez que fui à casa de Ivan e Neuza, Maria tinha acabado de sofrer o acidente e estava se recuperando na casa de outro filho. Fiquei uma longa tarde conversando com eles. Na época, Maria era independente – comia, tomava banho e vestia-se sozinha. Também reconhecia os familiares e conseguia se lembrar das coisas, dos nomes das pessoas e de endereços. Para Ivan, “o problema maior é a lógica. Ela tem uma lógica que é só dela. Por exemplo, um dia viu a piscininha de criança que a gente tem no fundo do quintal e que estava verde. Ela disse que estava daquele jeito para evitar a dengue. Outro dia, ela lavou as roupas íntimas dela e foi pendurar no quintal. Tinha tanto espaço, mas ela pendurou na beira da piscina. Quando eu questionei, disse que ali batia mais sol. Mas não tinha lógica, bate sol no quintal todo. Ou a lógica só existia na cabeça dela. Ela tem uma resposta pra tudo. Aliás, todos nós temos esse jogo de palavras, de linguagem, mas minha mãe ficou mais astuta nisso. Tem resposta na ponta da língua. Uma vez tinha café derrubado na mesa e quando perguntei, ela disse ‘não, eu não fui!’. As respostas dela às vezes deixam a gente em má situação.” Neuza, esposa de Ivan, complementou: Maria guardava as calcinhas sujas no armário e quando ela ia falar com a sogra, ela dizia “eu não fiz isso!”
“A pessoa tenta se afirmar, né? A gente aprende isso desde criança: chora, ganha alguma coisa. Então, de certa forma, é isso. É o ego tentando dominar, se afirmar. Uma vez, o médico perguntou pra minha mãe porque ela estava ali. Ela disse ‘ah, por causa do esquecimento, né? Mas é assim, velho se lembra mais do passado mesmo!’ Então, enquanto tem reserva cognitiva, se justifica”, continuou Ivan. 
Fui conhecer Maria 5 anos depois dessa conversa com Ivan e Neuza. Na casa de repouso onde estava, ela apareceu para conversar comigo, andando bem devagar, amparada por uma das funcionárias. Ao me ver, sorriu, como se me conhecesse. O que mais me chamou a atenção, à primeira vista, foi o bom humor e a disposição para interagir comigo. Apesar das confusões com as palavras, conversava longamente. Falou dos filhos, da nora, do trabalho como merendeira numa escola, da perda da mãe quando ainda era criança. Foi então que uma das funcionárias da casa me disse que Maria cantava, às vezes no meio da noite, acordando muitos. A partir daí, entre lembranças, esquecimentos e invenções, cantar dava o tom de nossos encontros. Já teve dia em que cantou a mesma música por seis minutos. Em outros momentos, emendava diferentes melodias como se fossem uma só; às vezes, parava no meio por ter esquecido a letra. “Engoli um pedaço”; “Não chegou”; “Errei, passa a régua”. 
A beleza de ouvir dona Maria cantando, o carinho e o companheirismo entre Ivan e Neuza e o brilho nos olhos quando falam da mãe – Maria é considerada uma mãe pela nora – são cenas que me habitam desde então. 

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